mar - 26 - 2006

Último dia da semana

Acorda, Phil, acorda! O Coveiro berra no corredor. Ah, não… quero dormir mais um pouco. São apenas oito horas, hoje é sábado! Que nada, levanta logo – teremos um dia cheio! Hum… cheio é? Só se for de sonhos e bocejos. Roubaram o cadeado do Coveiro. Que? Espera… estarei pronto em cinco minutos!

O cadeado foi, possivelmente, furtado por um senhor desconhecido que subiu as escadarias daquele prédio sem ter destino certo. O corredor estava vazio e o cadeado, aberto e com chave, encontrava-se indefeso pendurado na grade. O Coveiro havia comprado para dificultar a entrada dos ladrões que sempre perambulam o centro. Falei com ele e prometi repor, só que agora cada inquilino terá uma chave.

Resolvido o primeiro impasse, é hora de iniciar o que haviam programado, sem o meu conhecimento, para o sábado. Comi uma maçã de café da manhã, nem água tomei. Passar na loja de informática, pegar um monitor e uma impressora. Ok, foi rápido, adiante. Opa, a primeira chuva do dia. Deu para escapar, já estava dentro do carro. Atravessar a cidade, ir na metalúrgica. Hum… dois armários grandes. Um pouco pesados, é, mas com calma, força e paciência, conseguimos colocar em cima da pick-up. E agora? Dez minutos de trânsito até a fábrica da estante. Chuva, a segunda. Estante pequena, desmontada, beleza. Na volta, ir na vila ver um aluguel. Outra chuva, me molhei um pouco. Feito: nem inquilino nem dinheiro. Retorno ao centro, atravessar a cidade.

Hora do almoço, aleluia!

Descanso? Sonha… ainda são duas da tarde. Centro da cidade. Ver preços de celulares até cem reais, novos, com nota e brinde. Pegar outros num distribuidor, desbloquear – tudo certo. Ir no relojoeiro, consertar um. Pechinchar… chorar, se possível e for comovente. Ah, ia esquecendo, andar loja-a-loja até encontrar rádio-transmissores de três quilômetros de distância. Difícil, mas procurando… opa, uma lojinha com preço acessível – cheques pra lá, radinhos pra cá. Ah, cabeça, falta consertar a fonte do scanner. Caminhar até o técnico de gambiarras, ele faz isso rapidinho. E fez. Cobrou barato.

Tomar um banho bem demorado no fim da tarde seria muito bom… sonha! E o fogão, tem que pegar! E é do outro da lado cidade, sentido oposto do percurso matinal. Droga, tá, é o jeito. Afinal, quem vai cozinhar será eu… oba, me disseram que o forno funciona: pizza! Ônibus até a casa em que estava o fogão. Esperar a chegada do carro. Opa, por o fogão na traseira da pick-up. Ok, e quem vai segurando até o centro? Tá, eu vou. Longo percurso. Descer, abrir as dezenas de portas e cadeados até a cozinha. Fogão no local, testar: três bocas boas, uma mais ou menos, duas não acedem e o forno está bom. Nada mal.

Fim do trabalho? Que nada… falta carregar o carro. Mas já é noite. E daí? Melhor hoje que domingo, às cinco da manhã! É mesmo. Então, vamos. Pô, ainda tem aquelas caixas pesadas de livros, de ontem… mais as coisas de hoje e outras que sempre aparecem… chega de lamento. Uma caixa, duas, dez. Empilha! Armários, estante, monitor, impressora… foi tudo. As caixas sobravam nas laterais, na traseira e na altura: se a polícia rodoviária pega, é multa na certa!

- Garoto, por favor, pode me ajudar? É que estou com este braço quebrado e um pneu do carro furou. Você podia trocar…

Corcel. Nunca tinha trocado pneu de corcel. Ótimo dia e hora de trocar um pneu. E de noite então… só três parafusos em cada disco, fisicamente interessante. O macaco gemia a cada milímetro de subida. Não dava altura. Paciência. Onde? Então, devagar… o pneu foi dando altura. Troca feita.

- Quanto que eu te devo?

Favor não se paga, se retribui. Vê se não dirige mais com o braço quebrado. Ah, chega de trabalho. Agora um eterno banho e um cuscuz no jantar. Corpo relaxado e alimentado, só faltava um travesseiro: e não era de algodão.

Philipe Ribeiro
26/03/06 10:44

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