.:: da série: centro da taba alencarina ::.
Andanças noturnas no centro da cidade são um laboratório de vivências. As experiências fluem pelas calçadas e ruas. O olhar mais distraído consegue captar inúmeras situações que possivelmente não se concretizariam antes do sol se pôr.
Mendigos dormindo, catadores recolhendo recicláveis e bêbados cambaleando são os atores mais presentes na noite da zona central. Vigias e pessoas negociando o corpo completam o universo dos personagens.
Regularmente encontro todos eles nos quarteirões que percorro diariamente. Hoje, como de costume, encontrei alguns mendigos nas marquises, catadores com carrinhos de materiais recicláveis, bêbados se esforçando para andar – além dos vigias cochilando e das prostitutas e travestis ganhando o pão.
Numa das últimas esquinas antes de chegar em casa, encontrei uma “biba” trabalhando. Ela ajeitava um pedaço de pano que iria encobrir os seios sem nenhum volume. Era muito magra e alta, lembrava uma centopéia.
Ao perceber que me aproximava, segurou num poste e iniciou um showzinho particular. Subia e descia enroscada no mastro, fazendo caras e bocas. Olhei para ela e pude ler em seus lábios a música que sussurrava desde que me avistara no meio do quarteirão:
“Chama, chama, chama, por favor!
Vem, me chama, pra fazer amor!”
Sorri e falei “ô putaria”, sem interromper a caminhada. Mamãe diria: “Queima Jesus!”. Em poucos minutos cheguei em casa com a imagem, ainda, daquela biba ispilicute a cantar.


















