Archive for the ‘Prosa’ Category

O inverno e o nascimento

Há algumas semanas as ondas se acalmaram no Pecém e aquele mar, agitado e bom de surf, tornou-se um lago. Não pensei duas vezes: está chegando uma nova estação… era o inverno! A prancha de surf, companheira diária, foi guardada no dia 21 de junho e voltará à atividade na primavera, no fim do mês (23) de setembro.

Contei nos dedos quantos meses se passaram desde minha mudança pro Pecém e foram 9. Nove meses, uma gestação, um nascimento. O renascimento. No dia 20 nasci de novo neste corpo de 28 anos… batizei-me, graças à Deus, na Igreja do Monte – sensação que muitos diziam ser melhor do que tudo o que eu já tinha vivido e realmente foi. Algo pulava, saltitava dentro de mim… como se minha alma estivesse comemorando a volta para casa.

De lá para cá muitas coisas que não se encaixavam passaram a ter sentido e a cada dia vejo que estou num caminho que é estreito, entretanto é claro, sereno e perfeito. Depois de muitos anos vagando neste mundo, todo viajante quer a tranquilidade do retorno e, felizmente, o encontrei antes que fosse tarde demais…

O viajante olha para os trilhos

Nascer e viver numa cidade grande, mesmo tendo raízes nos sertões alencarinos, fez com que um jovem rapaz tivesse contato com idéias, tribos e sonhos… muitas vezes distintos, sem rumo, mas com princípios: de um mundo com justiça social.

Na última década muita coisa mudou. O mundo não é mais o mesmo. A conjuntura mudou e, com ela, os métodos de ação de outrora se tornaram obsoletos. O rumo, ou a falta dele, deu lugar à construção de bases sólidas localmente e – muitas vezes – aqueles que jogamos pedras hoje nos financiam…

O jovem rapaz, já viajante, precisou rever estratégias, métodos e ações, com o cuidado extremo de não perder o que tinha me mais precioso: lutar por um mundo mais justo.

O tempo passou, a faculdade também e aquele viajante – como tantos/as outros/as – precisou assumir responsabilidades com o mesmo vigor que lutava com suas idéias e ideais… A cabeça, já cheia de sonhos e ações, sobrecarregou e desta vez teve que se afastar de quase tudo e todos/as para rever o que realmente era importante, antes que pifasse de vez… e quase pifou.

Nesta caminhada de quase 10 anos, o viajante teve a companhia de uma pessoa que o fez muito feliz. Felicidade não é fazer o outro faz, falar o que o outro fala, mas viver momentos únicos e inesquecíveis como um pôr-do-sol que jamais será igual ao outro.

Amor não se fala, se vive. Amor não se prova, se sente. Um somaterapeuta disse, certa vez, que “amor é tanto, não quanto. Amar é enquanto, portanto. Ponto”.

Ultimamente o viajante passou a ter fé e refletiu sobre um dilema: antes, era um desiludido e não tinha fé. Hoje, tem fé e pode ser um iludido. Revendo a história, viu que muitos dos que admirava tinham fé: Antônio Conselheiro, Beato Zé Lourenço, Zumbi, Gandhi e tantos outros… A fé fortalece, conforta e agrega as pessoas. O viajante hoje tem fé e respeita a diversidade de crenças, embora tenha a sua preferida.

Nesta quase década, certamente não foi fácil unir a vida com a do viajante, que muitas vezes esteve perdido, sem rumo; noutras com caminhos distintos do que pregava… mas os princípios sempre foram os mesmos e ele acredita que é o há de mais belo num ser humano.

O viajante acredita ser um comunicador e historiador popular e jamais jogaria fora documentos, fotos e manuscritos, muito menos os que tocam o coração. Tudo o que foi aparentemente destruído encontra-se bem guardado digitalmente em seu fiel escudeiro, o Jesuíno, mas precisavam ser devolvidos conforme foi solicitado pelo trem.

Hoje, o viajante não é – ainda – aquele que desbravava muitas terras a fim de realizar vários sonhos, mas deixou de ocupar uma única estação que fez de residência temporária. Voltar para a estação de origem é uma forma de retornar às raízes e nunca tirar os pés do chão.

O assento ao lado do viajante hoje está vago, mas ele está com a mão direita em cima guardando o lugar para aquela que o acompanhou nos bons e maus momentos de um jovem rapaz que quer viver em busca de um mundo melhor para todos/as, ao invés de simplesmente contar os zeros de uma conta bancária.

Uma companhia involuntária

No alto do morro de uma pacata praia do litoral cearense, o vigia da Igreja lá construída não deixa nada passar despercebido. Ele protege os quatro cantos da casa do Senhor e, ao menor ruído, já está preparado para o combate. Seu nome? …

Ele peregrina alegremente a cidade inteira, todos os dias, e sempre encontra uma hora para ir à praia: ver o movimento, passear pela orla e encontrar com seus pares.

É conhecido na comunidade inteira e toda vez que a Irmã, vizinha da igreja, sai de casa – lá vai fazendo companhia: seja na farmácia, no mercadinho, no caixa eletrônico ou onde ele mais gosta… na praia!

Certa vez acompanhei-a para um banho de mar e logo percebi: estávamos à três. Sorri e ela falou, ironicamente, Eu sempre quis morar numa cidade pequena e ter uma companhia involuntária que me acompanhasse pra onde quer que eu fosse…

Ah, ia esquecendo… seu nome ? Rabo fino.

Este blog usa WordPress | Save more on Free CellPhones Online. | Thanks to Credit Card Deals, Best CD Rates and Sell cars